Vendedores que atuam na Biquinha, em São Vicente, ficam apreensivos com reforma (Arquivo pessoal) Permissionários da praça da Biquinha de Anchieta, em São Vicente, litoral de São Paulo, estão sofrendo com a obra de revitalização de um dos pontos mais tradicionais da cidade. As famílias que dependem do comércio local para sobreviver relataram preocupação com uma intimação recebida para desocupar o local. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O início das obras preocuparam a permissionária Luciana Pereira Silva, de 50 anos, que trabalha desde os 14 anos vendendo doces, sendo em boa parte de sua vida na Biquinha. A intimação foi recebida durante o mês de março. Ela explica que tudo começou com o avô do seu sogro, que iniciou as vendas na região antes mesmo de haver qualquer estrutura legalizada. “Não existia nem praça, eram três baianas trabalhando do lado da biquinha, com três tipos de cocada”, relembra. O pai do seu sogro comprou a mesa de uma das vendedoras, que, na época, utilizava uma simples caixa de tomate para expor os doces. O negócio passou de geração em geração, até que a Prefeitura iniciou o processo de regularização do local, concedendo licenças de trabalho aos comerciantes, agora chamados de permissionários. Luciana fala em nome de um grupo de comerciantes preocupados com o futuro incerto da venda de seus produtos com o início das obras de revitalização da praça, que deve ficar pronta somente em janeiro de 2026. Obra A revitalização da praça está entre uma série de obras que integram o programa 'São Vicente de Cara Nova', com custo de cerca de R\$ 10 milhões aos cofres públicos. A reurbanização da Biquinha conta com a substituição dos pisos, reconstrução dos quiosques, construção de uma área de lazer com vista para a orla e novo paisagismo. Segundo a Administração Municipal, o objetivo da obra é resgatar o vínculo dos moradores e turistas com um dos principais cartões-postais de São Vicente. Para isso, a cidade contou com um investimento do Departamento de Apoio ao Desenvolvimento dos Municípios Turísticos (Dadetur), ligado ao Governo de São Paulo. Permissionários temem ficar sem local de trabalhando durante as obras de revitalização (Reprodução/Prefeitura de São Vicente) Intimação No último dia 10, segunda-feira, uma intimação foi entregue aos comerciantes. O documento solicita a retirada dos permissionários em um perído de 24 horas, sob pena de multa e apreensão de suas mercadorias. No entanto, as obras impactam diretamente os vendedores, que garantem o sustento de suas famílias com a comercialização de produtos no local. Problemas A mulher procurou a Secretaria de Comércio, Indústria e Negócios Portuários (Secinp), mas não recebeu respostas concretas. “A Secretaria me falou para comprar um carrinho e sair andando. Quem vende tela, vai para a Pracinha dos Namorados ou para a Praça 22 de Janeiro. Respostas favoráveis para a gente, de jeito nenhum. Como um idoso vai para a praia com um carrinho? Impossível”, desabafou. Apesar disso, a Praça 22 de Janeiro não é uma opção viável, conforme explica Luciana. “Todos nós teríamos que comprar uma barraca que atenda aos padrões estabelecidos pela Prefeitura. Mas isso custa caro. Precisa montar, desmontar e transportar diariamente. Como vamos levar isso se muitos de nós não temos carro?”, questionou. Ela explica que duas reuniões já foram feitas com o secretário da Secinp, mas nada foi resolvido. A confeiteira cobra que a Administração Municipal forneça os itens necessários para fazerem essa mudança do local de trabalho. “A gente não pode se afastar da biquinha, porque nossa tradição de doce é a Biquinha. Sem a biquinha a gente não é nada. As pessoas vão lá por conta dos famosos doces”, explicou. Os permissionários temem pelo futuro e sustento de suas famílias. "Minha filha trabalha comigo, foi dali que eu eduquei minha filha e pago a faculdade dela há dois anos. Como vou fazer agora? Só depende de Deus e das autoridades de São Vicente”, lamenta. Prefeitura A Prefeitura alega que, desde o comunicado oficial em outubro de 2024, manteve contato com os comerciantes para garantir que suas atividades pudessem continuar durante as obras. A Administração Municipal explica que houve a possibilidade de transferência temporária dos comércios. De acordo com a Secinp, foram promovidas reuniões individuais e coletivas com os proprietários, apresentando a possibilidade de cessão da Praça 22 de Janeiro e outros espaços públicos para que empreendedores estivessem em um local estratégico e com alto fluxo de pessoas após o iminente avanço dos trabalhos. A administração reforça que se prontificou a auxiliá-los com todo o suporte de políticas públicas relativas às adaptações necessárias para o funcionamento dos empreendimentos ao longo do período das obras. No entanto, os comerciantes negam esta afirmação e revelam estar à própria sorte. O que pedem os permissionários? A confeiteira explica que os trabalhadores desejam que a Prefeitura instale, na Praça 22 de Janeiro, um contêiner equipado com cozinha e pia, que já pertence a eles. No entanto, ela relata que a solicitação foi negada pela Secinp sob a justificativa de que a cozinha móvel é esteticamente inadequada. “O que nós queremos é ajuda para resolver nosso problema, pois não temos condições de arcar com a mudança”, ressaltou.